15 abril 2007

Corre corre cabacinha....


Era uma vez uma velhinha que vivia só, na sua casinha da aldeia. Certo dia, recebeu uma carta da sua neta, que vivia numa terra distante. A carta trazia-lhe uma grande alegria – a neta ia casar-se e convidava a avozinha para assistir ao seu casamento.

Tão contente ficou que imediatamente se pôs a caminho para não chegar atrasada. Depois de ter andado alguns quilómetros, surgiu à sua frente um grande lobo que lhe disse numa voz rouca:
--Ai, velhinha, que eu como-te!

-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha.

Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha! -Está bem na volta cá te espero! - respondeu o lobo e deixou-a seguir caminho. Lá mais adiante, surgiu-lhe na frente um urso, que, pousando-lhe as patas nos ombros, lhe disse ao ouvido:
-Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha! Tal como o lobo, o urso achou que a velhinha tinha razão e deixou-a seguir viagem, dizendo:
-Está bem na volta cá te espero! Já quase no fim da viagem, uma terceira fera apareceu à velhinha – era um leão.
-Ai, velhinha, que eu como-te!
-Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha!

O leão também acho que era melhor esperar que ela voltasse mais gordinha. Então disse-lhe:
-Está bem na volta cá te espero!

Muito assustada a velhinha continuou o seu caminho até que chegou, por fim a casa da neta. Contou tudo o que lhe acontecera e a neta acalmou-a dizendo que não haveria problema nenhum.

O casamento foi muito bonito e a velhinha estava muito feliz. Mas, quando se decidiu a voltar para a sua casa, começou a ficar com muito medo. A neta correu ao quintal, cortou a cabacinha maior e mais redondinha que lá tinha abriu-lhe uma pequena porta e a velhinha entrou nela.

A neta voltou a fechar a cabacinha. Então a viagem começou quando a cabacinha e a velhinha rebolavam estrada fora . A certa altura passaram ao pé do leão, que perguntou:
- Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha?
A velhinha de dentro da cabacinha respondeu:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!!
O leão fez cara de admirado! A cabacinha continuou rebolando pela estrada fora. Um pouco mais à frente estava o urso, esperando. Este resolveu perguntar:
-Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha? De dentro da cabacinha, a mesma voz respondeu:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!! A cabacinha continuou rebolando, rebolando, sempre a toda a pressa.

O urso não percebeu nada do que via e ouvia… Mais perto de casa estava o lobo esfomeado. Ao ver a cabacinha perguntou-lhe:
-Oh cabacinha não viste para aí uma velhinha? De dentro da cabacinha a voz da velhinha fez-se ouvir:
-Não vi velhinha, nem velhão Corre corre cabacinha Corre corre cabação!!!

O lobo pulou de raiva. Finalmente a nossa velhinha chegou a casa. Não havia mais perigos. Pela estrada fora tinham ficado, enganados, os seus três inimigos. A cabacinha salvara-lhe a vida.

9 comentários:

Maria Alice disse...

Minha querida, adorei a historinha. Estou aqui no Brasil. Diga-me, porém, o que é cabacinha? Que forma tem? ë uma flor? Você escreveu esta história?
Adorei o seu blog

Clara Haddad disse...

Olá Maria Alice,
Cabacinha nada mais é do que uma cabaça que é um género de fruto que tem um casaca grossa tipo a abóbora e existem vários formatos..de certeza já viste..fazem até bonecas com a cabaça ...dá pra fazer um jarro e até chocalho com isso.Os artesões brasileiros usam muito!
Bom com relação ao conto é um conto tradicional português chamado Corre Corre Cabacinha e essa é uma das versões pois a velhinha encontra três animais , na versão dita mais fiel, a velhinha só encontra um lobo no caminho.
Irei ao Brasil em abril se tudo correr bem...vou dar uma oficina e participar de um encontro de contadores quem sabe não nos vemos por ai?
Grande abraço e obrigada pela visita!Esteja a vontade para voltar...risos ;O)

POETA MARCO HAURÉLIO disse...

Olá, Clara. Sou autor de cordel e, de uns tempos pra cá, estudioso das nossas tradições populares. Recolhi esse conto no sertão baiano, onde, em vez da cabaça, havia uma cumbuca. A velhinha não escapa aos animais ferozes, graças ao arteiro macaco, que a denuncia atirando-lhe uma pedra. O bordão é: "Não vi velhinha, nem peravelhinha!"
O prof. Paulo Correia, da Universidade do Algarve, fez as notas explicativas, indicando inclusive o número de versões existentes na área lusófona.

Clara Haddad disse...

Olá Marco,
Obrigada pela visita ao meu Blog!
Que interessante essa informação...náo conheço essa versão...tens como enviá-la para mim ou citar o livro de referência onde posso encontrar?
Um abraço,

Pupila deambuladora disse...

adoro esta história...já li vezes sem conta. é um dos contos infantis mais fascinantes que já li em toda a minha vida. ando no 12ºano, e andei a estagiar num infantário, e lá uma educadora contou essa história, já a conhecia, mas foi tão bom ouvir e recordar de novo!!!!

é fantastica!!!!

ass: herdeiradopensamento.blogspot.com

Clara Haddad disse...

Olá "Pupila"
Eu também adoro esse conto , é divertido e desde que o descobri costumo contá-lo com frequência.Esta entre as histórias do meu repertório.
Um grande abraço e obrigada por visitar meu Blog!

Anônimo disse...

eu adoro este conto mas este conto que esta aqui exposto nao tem nada a ver com o verdadeiro conto.
mas esta muito fixe o seu blog

Clara Haddad disse...

Olá,
Existem muitas versões para um conto tradicional.Por isto penso que não existe um "verdadeiro conto", e sim aquele que corresponde ao local...e para nós o verdadeiro sempre será aquele que ouvimos primeiro...e que está em nosso coração..porque um conto tradicional reflete um povo e uma cultura...Por isso existem tantas versões e é mesmo possível encontrar um conto indiano, francês , chinês com a mesma estrutura do corre corre cabaçinha mas com personagens que correspondem a cultura local.Postei este porque gosto bastante desta versão.
De qualquer maneira agradeço o comentário e visita ao Blog !Volte sempre!
Cumprimentos,

Clara Haddad disse...

Na versão" mais fiel" e mais conhecida dos portugueses´só existe o Lobo.

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